Planeta

08/12/2020 08h00

Polinize sua vida

As abelhas sociais são inofensivas e estão sendo tratadas como pets que prestam um nobre serviço ambiental

Por Gilberto Blume

Mariana Fabel Polezi/WikimediaCommons/NBE
Abelhas1

Abelhas

Faz pouco tempo, coisa de alguns pares de anos, que passamos a ouvir, ler, repetir e compartilhar que a humanidade não seria capaz de prosseguir sua saga na Terra caso as abelhas desaparecessem. A “profecia” chegou a datar a catástrofe: após quatro anos sem abelhas, a humanidade sumiria, puf!, sem misericórdia.

Os motivos são óbvios. Sem abelhas, não há polinização; sem polinização, não há alimentos para os homens e tampouco para os animais. E sem alimentos...

Naturalmente, ninguém está disposto a comprovar a veracidade dessa tese. Há um ponto pacífico, contudo, que necessariamente todos concordamos: é muitíssimo melhor ter abelhas do que não tê-las.

A boa notícia é que, hoje, podemos ter abelhas em casa como temos nossos cãezinhos, gatinhos, tartarugas – e com cuidados praticamente nulos. É a meliponicultura, criação de abelhas nativas do Brasil, que são abelhas sem ferrão.  

Sem ferrão, portanto inofensivas, essas criaturinhas circulam pela vizinhança coletando o pólen das flores que encontram. Elas levam o pólen coletado para suas casinhas, transformando-o em mel, seu próprio alimento. No rastro da coleta do polén, e essa é a chave da melinopicultura, as abelhas vão polinizando as plantas que visitam. No resumo, as abelhas que temos em casa polinizam as plantas num raio de algumas centenas de metros, sem cobrar absolutamente nada por isso, exceto ter um lar para depositar o pólen coletado. E esse lar nós podemos proporcionar para as abelhinhas.

Isso não tem preço, só quem já tem abelhas nativas sem ferrão em casa sabe da satisfação de ver o entra-e-sai na caixinha. Esse movimento da colmeia é a comprovação de que alguma polinização está ocorrendo concretamente na nossa vizinhança – graças a nós que adotamos as abelhas.

NA PRÁTICA

Ter abelhas sem ferrão em casa é extremamente simples.

Funciona assim: você adquire uma colmeia, já ambientada numa caixa pequena, e instala a caixinha em sua casa. Pode ser na varanda, na sacada do apartamento, na cobertura, no pátio, no sítio.

É só isso, nada mais.

A partir dessas providências, as abelhinhas se viram sozinhas: elas vão obter a orientação solar para determinar sua localização, uma espécie de GPS natural que vai permitir que retornem para a colmeia, e vão sobrevoar a área. Na sequência imediata, coisa de poucas horas, já vão presentear sua família com o vaivém na colmeia.

Abelhas nativas sem ferrão não exigem cuidados. Tudo se resume a proporcionar um lugar seco e abrigado do sol e da umidade extrema. Em troca, as criaturinhas vão ministrar gratificantes aulas de educação ambiental. As caixinhas podem ser abertas, visualizadas por dentro. A criançada pode espiar o trabalho incansável desses insetos tão especiais, pode acompanhar o desenvolvimento da colmeia, a formação do mel, da cera, observar a rainha.

Dizer que isso é mágico é dizer o básico, nada menos.

CUSTOS

O preço de levar para casa uma colmeia de abelhas nativas sem ferrão depende da espécie que você escolher.  As mais baratas geralmente são as abelhas mirins ou jataís. Mandaçaias, tubunas e maguaris são mais bem cotadas no mercado meliponicultor.

O que importa nesse hobby funcional, porém, não é o preço monetário da abelha, mas sim o valor que a atividade agrega e proporciona. Todas abelhas, sem distinção, cumprem a mesma função: coletam pólen e polinizam plantas.

Colmeias, em tese, não têm prazo de validade. A vida de cada inseto é relativamente curta, apenas 30 a 40 dias, mas a reprodução deles é tão eficiente que a renovação é constante. Há relatos de colmeias ativas por décadas a fio.

AS DIFERENÇAS

Quando o assunto é abelha, estamos condicionados a pensar na abelha que ferroa dolorosamente e é forte defensora de seu território. No caso das abelhas nativas, esqueça essa máxima. As meliponini, abelhas brasileiras, não têm ferrão, são inofensivas e se adaptam a praticamente qualquer ambiente, inclusive urbano – por isso são chamas abelhas sociais.

As abelhas com ferrão são as Apis mellífera, conhecidas como abelha africanizada. Foram introduzidas no Brasil por religiosos europeus à época do descobrimento para produzir mel e cera, matéria-prima das velas. Os enxames, sem predador natural no Brasil, se disseminaram por todo o território. O ferrão funciona como defesa da colmeia.

Há centenas de espécies nativas tentando sobreviver ao desmatamento e ao uso indiscriminado de agrotóxicos, e tê-las em casa é dar uma chance à vida, tanto animal quanto vegetal, pois ambas se complementam.

Não é novidade, o principal inimigo das abelhas nativas, hoje, é o homem, com suas práticas predatórias. Desmatamento sem freios, poluição ilimitada e emprego massivo de agrotóxicos têm afetado a indiscriminadamente a natureza. As abelhas, sabidamente sensíveis a alterações ambientais, não resistem e morrem.

A preservação das espécies é mais um bom motivo para termos abelhinhas em casa.

 

Algumas abelhas nativas sem ferrão

Mirim

Abelha-limão

Boca-de-sapo

Borá

Guarupu

Iraí

Irapuã

Jataí

Lambe-olhos

Mandaçaia

Manduri

Tataíra

Tubuna

Uruçu

 

 

 ·       Gilberto Blume é jornalista e paisagista.

 

 

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