Saúde Integral

06/10/2020 08h00

Comida que abraça

"Aqueles momentos e aquela comida simples, feita em casa por mãos amorosas, marcaram de forma inevitável minha memória e minha relação com o alimento".

Por Débora Chiari

FREEPIK/BE
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Comida que abraça

  (...) "Ri, sem palavra. Mas, para ela, não havia riso, nem motivo. Cozinhar é o mais privado e arriscado ato. No alimento se coloca ternura ou ódio. Na panela se verte tempero ou veneno. Quem assegurava a pureza da peneira e do pilão? Como podia eu deixar essa tarefa, tão íntima, ficar em mão anônima? Nem pensar, nunca tal se viu, sujeitar-se a um cozinhador de que nem o rosto se conhece.

– Cozinhar não é serviço, meu neto – disse ela. – Cozinhar é um modo de amar os outros" .

Trecho do conto ‘A avó, a cidade e o semáforo’, do livro “O Fio das Missangas”, de Mia Couto.

Sou bisneta de italianos, e na minha família, cozinhar sempre foi um ato intimamente atrelado às emoções. Dentre as lembranças mais queridas de infância, estão as manhãs de inverno na casa da nona Teresa - naquela pequena cozinha, o tilintar das brasas do fogão à lenha era a melhor trilha sonora para a galinha ao molho com polenta ou para o nhoque rápido, temperado apenas com um pouco de azeite, cebolas em fatias finíssimas e folhas frescas de sálvia, colhidas na pequena horta atrás da casa. Outras memórias repletas de afeto perpassam as tardes em brasa de fevereiro, no quintal de casa, quando minha mãe e minha tia - metidas na sombra reconfortante das laranjeiras - se revezavam para mexer a figada no tacho de cobre. Em meio à função delas, passávamos as horas, conduzidos pelo som dessas vozes tão familiares, que ora contavam histórias de algum conhecido, ora comentavam sobre aquelas coisas triviais da vida. Ficávamos ali em volta delas, à espera das colheradas fortuitas do doce, aspirando aquele aroma quente e terno, assimilando sensações que anos depois, seriam resgatadas em segundos, mediante uma faísca única daqueles dias.  

Aqueles momentos e aquela comida simples, feita em casa por mãos amorosas, marcaram de forma inevitável minha memória e minha relação com o alimento. Mesmo naquelas manhãs imersas na quietude serena da casa da nona - ela era econômica demais com as palavras - os aromas e sabores que eu experimentava delinearam muito mais do que a saciedade física: foram capazes de nutrir minha alma de criança com doses gigantescas de segurança, afeto e alegria. E essa relação de amor atrelado à nutrição é talhada nos primeiros dias de vida, quando somos amamentados - uma ligação íntima e poderosa, capaz de se estender por toda uma vida, formatando os pilares de nosso afeto e da nossa relação com o mundo. 

Hoje, sigo os mesmos passos, construindo novos gatilhos de memória no meu dia a dia, nas refeições que preparo para meus filhos. Eles já passaram da infância - ensaiam agora os primeiros passos no mundo adulto - mas reconheço esses sentimentos ligados à comida nas singelas porções de afeto que eles deixam vir à tona, em momentos cheios de nostalgia, quando voltam a ser as minhas crianças. Não são raras as vezes que um deles entra pela cozinha e solta a frase "Ah, esse cheiro de começo". Sim, eles associam "cheiro de começo" ao chiado sutil da cebola e alho estalando na panela - aquele aroma inconfundível do primeiro passo de tantos pratos, a primeira etapa que combina esses dois ingredientes tão simples numa associação quase mágica, que desperta o apetite e a curiosidade. "O que tu vai fazer hoje?" é bem mais que uma pergunta sobre o cardápio do dia: é uma forma amorosa de aproximação com quem prepara o alimento e tece esses fios invisíveis de ternura entre quem senta à mesa e quem maneja as panelas. 

Por isso, comida afetiva é, por essência, uma série de preparos simples, que passam bem longe de um menu sofisticado. É o prato de macarrão da casa da vó, a sobremesa de domingo que a mãe prepara há décadas, o carreteiro apetitoso que o pai elabora com rapidez no domingo de noite com o restinho do churrasco do almoço. Nossas escolhas alimentares são parte do aprendizado infantil e os alimentos que provamos ao longo da vida nos conectam ao lugar e à pessoa que os preparou, e por isso, estão intimamente ligados às nossas lembranças. 

Mas porque essa ligação tão intensa se estabelece? O que nos leva a desenvolver uma carga gigantesca de sentimentos atrelados a aromas e sabores? Como um prato de sopa ou uma simples fatia de bolo - a exemplo das madeleines citadas por Marcel Proust na obra "O caminho de Swan", que o levam de volta à infância e às visitas à casa da tia - conseguem despertar tanta nostalgia, saudade, carinho? Talvez a resposta para essas e tantas outras questões seja o fato de que a nossa alimentação vai muito além de uma simples questão biológica - é um ato cultural e até mesmo social.  

A comida é um elo de identificação com nossos antepassados, nosso lugar e nossas tradições. Sob esse olhar, o alimento em si é um produto cultural, através do qual nos revelamos individualmente e coletivamente. São nossas raízes que se perpetuam nas receitas passadas de geração para geração - a relação do homem e sua comida ultrapassa a saciedade e carrega sentimentos fortes de pertencimento, nostalgia, segurança e afeto.

A comida fala - discorre, em suas infinitas formas de preparo sobre quem somos. Na reunião familiar, nesse encontro em torno da mesa, constroem-se laços inimagináveis e infinitamente fortes, que se perpetuam no momento que repetimos aquele ato amoroso que é o preparo de uma refeição para alguém. A partir daí, é possível também compreender a imensa relevância de conhecer a origem e a forma como foi produzido aquele alimento. Saber que aqueles ingredientes foram plantados e colhidos por alguém (e não por máquinas), reconhecer a arte que está presente no ato de deitar uma semente no solo, acompanhar  sua germinação e desenvolvimento até ela se tornar uma planta madura, capaz de produzir frutos que vão alimentar outros seres vivos - tudo isso constitui uma mágica que a vida moderna tem sufocado e que precisamos resgatar. 

Defender a ideia de que o alimento que nos nutre precisa ser saudável em todo o seu caminho - da terra à nossa mesa - é compreender a importância dessa engrenagem, desses elementos tão ancestrais que compõem tanto a cadeia de produção quanto o modo como preparamos cada ingrediente. É preciso ampliar e fortalecer práticas de produção responsáveis, que não agridem o meio ambiente e que disponibilizam alimentos com um custo justo e acessível - só desse modo poderemos realmente restabelecer o papel da nutrição não apenas sob seu aspecto fisiológico, mas em toda a sua abrangência mental e emocional, como parte de uma imensa rede de conexões invisíveis que tecem o modo como buscamos uma existência mais significativa e saudável.    

Porque a vida - em toda a sua complexidade e mágica - requer nosso olhar atento a esses detalhes tão preciosos. A semente que cai na terra, que germina e nos alimenta é parte de um milagre imensurável e o modo como juntamos cada um dos ingredientes em nossa cozinha, os sons que embalam o preparo da refeição e as doses de afeto que depositamos ali, naquele precioso momento, são capazes de alimentar um universo infinito de lembranças e saudades, que podem alcançar os dias mais longínquos do percurso de uma vida. A comida pode e deve ser bem mais do que algo que alimenta nosso corpo, que nos mantém vivos - ela, em seu intuito mais profundo e significativo - carrega a capacidade de reconfortar, aninhar nossas dores e lamentos num abraço invisível, terno e quente, como um belo prato de sopa fumegante numa noite gelada. 

*Débora Chiari é uma jornalista que adora escrever sobre comida. E ama cozinhar.

 

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