Crescimento pessoal

03/01/2018 06h30

A meditação pode mudar você... e o mundo!

Como uma prática simples, mas ao mesmo tempo poderosa, pode construir uma nova realidade, mais pacífica e harmoniosa.

Por Elisa Dorigon

Pixabay | Depositphotos
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Do interno para o externo

O monge budista e líder espiritual Dalai Lama diz que, se todas as crianças de oito anos, aprenderem a meditar, acabaremos com a violência no mundo dentro de uma geração.

Poderoso, não é mesmo? Mas, afinal de contas, o que é meditar?

Embora ainda esteja bastante associada a um contexto religioso, por sua ligação com o Budismo, o Judaísmo e o Hinduísmo, cada vez mais a meditação vem ganhando adeptos e tirando o véu de mistério que acompanha a prática e trazendo para a realidade, de uma forma simples e descomplicada, o ato de meditar. 

A palavra meditação vem do latim meditatum, que significa ponderar. E quem, nos tempos atuais, não precisa de uma boa dose de ponderação?

Embora existam diversos métodos, podemos dizer que o objetivo comum é entrar em contato com a nossa essência, concentrando-se apenas no presente.

“Sua origem se perde na noite dos tempos...”, diz a instrutora de yoga Vera Edler. A meditação é o ponto alto da prática do yoga: todas as demais técnicas são preparatórias, já que a meta da filosofia é o autoconhecimento, que vem com a meditação. “Relaxar (abstrair os sentidos externos) e concentrar (focar a mente em um ponto) são passos preliminares que preparam para a meditação, definida como parada das ondas mentais, um estado de hiperconsciência, de contemplação. Existem vários tipos de Meditação, conforme o contexto em que ela acontece. Pode partir de uma concentração (mental), identificação (emocional) ou auto-observação (observar a respiração, por exemplo). O fato é que a prática é simples, só requer um pouco de disciplina”, salienta a professora.

O terapeuta e professor de meditação Sérgio Veleda, diz que a meditação clássica, da forma como Buda ensinou, serve de base para a prática da meditação na atualidade. “A prática clássica está fundamentada em dois exercícios: focar sobre um objeto de meditação (neste caso, a própria respiração), desenvolvendo a plena-atenção, a estabilidade e a centralidade da atenção. Posteriormente, pode-se permanecer atento e “dar-se conta” do que ocorre nos quatro campos da atenção (corpo, sensações, pensamentos e padrões psicológicos), sem se distrair. Esses dois exercícios cultivam uma mente desperta”, conta Sérgio.

Parece complicado?

Como coordenador de um centro voltado para o trabalho de desenvolvimento pessoal, o Vale do Ser, na serra gaúcha, Veleda ensina práticas de meditação fora do contexto religioso. Segundo o instrutor, para se começar a meditar, é importante encontrarmos um bom assento, que seja firme. As pernas podem ficar cruzadas ou dobradas, mantendo os joelhos abaixo da linha do umbigo ou em contato com o solo. A coluna deve manter-se ereta, as orelhas alinhadas com os ombros e nariz com o umbigo. As mãos não necessitam de gestos, mas de simplesmente repousarem sobre as coxas, com as palmas voltadas para baixo. “No começo, a prática pode ser feita de olhos fechados, mas com o tempo o melhor é mantermos os olhos parcialmente abertos, olhando na direção do solo, sem nada focar, simplesmente relaxando o olhar nessa direção. Meditar com os olhos abertos é bom para nos mantermos mais atentos. A respiração deve estar relaxada, sem mudar o seu ritmo. Sentamos e prestamos atenção na percepção táctil da respiração, ou seja, sentimos o seu movimento através do corpo”.

Para o instrutor, é o ato de se estar presente, atento, não distraído. “Trata-se de uma presença aberta e autêntica que, através do silêncio, da imobilidade e da introspecção, revela não exatamente a santidade ou a iluminação de alguém, mas o aspecto mais digno da humanidade: a coragem de apenas ser, sem suportes ou defesas. Isso indica o ponto de maturidade que um bom praticante pode alcançar, depois de relaxar e de centrar a sua atenção, sem distrações, e de simplesmente “ser”, sem apoiar-se em artifícios. Quando sentamos para meditar, não criamos imagens, fantasias ou ordens para o que deveríamos ser ou nos tornar. Buscamos um espaço em que relaxamos através da respiração e sustentamos a atenção presente. Nesse ponto nos deixamos simplesmente ser, sem forçar, objetivar, sem lutar contra nada. Trata-se de reduzir ao máximo a complexidade de tudo, focalizando a mente de forma simples e imediata. Ou seja, simplificamos a nossa complexidade. Podemos dizer que se trata de uma educação para ser, ao contrário do ser educado para apenas fazer”, conclui Sérgio.

Vários métodos

Professor de meditação desde 1998, Ricardo Ensho explica que a prática de meditação pode ser realizada através de métodos ativos e passivos. Os ativos se valem de música, canto, dança e expressão corporal como: os milenares cantos de mantras, o secular giro dos dervixes Sufis e os criados por Osho no século XX. Os passivos são milenares e constituem-se do nobre silêncio – a observação com atenção plena no aqui-agora – como na Yoga e no Budismo. “Hoje a técnica em voga é o mindfulness – atenção plena – ela é uma versão ocidental simplificada das técnicas orientais, sem adição de cunho religioso. É bem-vinda e recomendada para principiantes terem um contato com a prática”, conta Ensho. Segundo o professor, resume-se a ter foco no presente tendo como suporte a respiração e o contato com o corpo através dos sentidos.

“De modo geral os benefícios dos métodos de meditação são a redução do estresse e o ajuste as situações de vida. Mas, de modo específico, isto não atende ao propósito final da meditação, que é acordar. Caso você tenha um anseio profundo para descobrir quem realmente é precisa se aprofundar nos métodos orientais. Ao reconhecer a sua verdadeira natureza o véu das ilusões é removido e os métodos podem ser abandonados. As técnicas só são um auxílio e podem ser comparadas a uma canoa usada para atravessar o rio (das ilusões) que é deixada de lado na margem oposta”, exemplifica.

Discípulo de Moriyama Roshi, mestre Zen-budista japonês, de quem recebeu o nome Ensho (que significa círculo perfeito, completo e pleno) e o grau de professor, ele tem como preferência o Zazen, meditação Zen-budista sentada e silenciosa. É autor do livro “Shigetsu – O dedo que aponta a lua – a meditação Zen na vida diária”, onde ele faz um convite para o “acordar” dos leitores. “A proposta é apontar na direção correta para que as pessoas descubram as respostas por si mesmas, através da visão daquilo que está além das palavras. É para encorajar, servir de estímulo e inspirar as pessoas a examinarem a grande questão existencial: quem sou eu? É a pergunta certa, porque leva direto ao ponto. A mente está sempre num galope desatinado, vagando ao deus-dará, produzindo um turbilhão de ideias fragmentadas que tomam conta da cabeça; fazendo as pessoas esquentarem a cuca e perderem o contato com a realidade. A meditação lhes dá olhos para ver e descobrir a resposta”, finaliza.

Entendimento espiritual

Embora mais distante do caráter religioso, a meditação mantém-se como uma importante ferramenta de acesso ao nosso desenvolvimento espiritual, na medida em que equilibra, em nós, o interno e o externo.

A Brahma Kumaris, por exemplo, é um movimento espiritual mundial dedicado à transformação pessoal e à renovação do mundo desde 1937. Foi fundada na Índia e difundiu-se por mais de 110 países em todos os continentes, praticando e ensinando a meditação Raja Yoga.  

A Raja Yoga é uma meditação sem rituais ou mantras e pode ser realizada em qualquer lugar, a qualquer momento. É praticada com os olhos abertos, o que torna o método flexível, simples e fácil. Segundo a organização, a consciência espiritual nos dá poder para escolher pensamentos bons e positivos em vez daqueles negativos e inúteis, a responder às situações, em vez de reagir a elas e começamos a viver em harmonia, criamos relacionamentos melhores, mais felizes e mais saudáveis e mudamos nossas vidas de uma forma mais positiva.

Meditar, segundo a Brahma Kumaris, é um momento reservado para a reflexão e o silêncio, fora da agitação e ruído da vida cotidiana e nos possibilita o retorno a um ponto central do ser. Em nosso mundo moderno, o ritmo de vida está cada vez mais acelerado e estamos perdendo contato com nossa verdadeira paz e poder interior. Quando não sentimos mais os pés no chão, podemos nos sentir impulsionados e puxados para diversas direções. É nesse ponto que começamos a experimentar estresse e uma sensação de estarmos sendo armadilhados. Essa sensação leva, gradualmente, a enfermidades, pois nossa saúde mental, emocional e física perde o equilíbrio. Existem centros da Brahma Kumaris espalhados por todo mundo e qualquer pessoa que queira pode beneficiar-se da meditação Raja Yoga.

 

 

 

 

 

 

 

 

Na verdade, incentivamos fortemente que as pessoas conheçam a meditação, busquem o método ou a linha que mais se afine consigo e mergulhem neste universo de profunda transformação individual e coletiva, potencial gerador de uma sociedade mais pacífica e harmônica.

Elisa Dorigon é jornalista

 

 

MEDITAÇÃO É CIÊNCIA!

Os estudos científicos já comprovam amplamente os benefícios da técnica. Conheça alguns.

* Uma pesquisa feita pelo Hospital Geral do Massachusetts e da Escola de Medicina de Harvard mostrou que meditar por muito tempo aumenta a massa cinzenta do cérebro. Isso significa que a meditação ajuda a ampliar os sentidos, melhorar a memória e a tomada de decisões das pessoas adeptas à atividade.

* Em 1967 o professor de Harvard, Hebert Benson descobriu que pessoas em estado meditativo usavam cerca de 17% menos oxigênio. Além disso, apresentavam menor pressão sanguínea e aumento na produção de ondas cerebrais, essenciais para ajudar a melhorar a qualidade do sono.

* Um estudo feito pela Unifesp, em parceria com o Hospital São Matheus, contou com um grupo de 140 idosos praticando meditação por dois meses, duas vezes por semana. Metade dos participantes que seguiu à risca a prática da meditação relataram resultados bastante significativos:

  • 71,19% relataram melhorias na postura;
  • 64,41% afirmaram estar respirando melhor;
  • 62,71% conseguiram aumentar a disposição;
  • 57,63% experimentaram redução de dores físicas
  • 45,76% tiveram melhorias em doenças crônicas (junto com o tratamento convencional);
  • 37,29% relataram mudanças no hábito intestinal.

* Segundo um estudo da Universidade de Harvard, 19 pessoas que sofriam com crises de enxaqueca constante começaram a meditar, por 8 semanas. Os resultados foram animadores: a dor foi ficando menos intensa e as crises mais curtas. O que não dispensou totalmente a necessidade de aliar aos remédios para este tipo de dor.

* Pessoas que meditam todos os dias há mais de dez anos têm uma diminuição na produção de adrenalina e cortisol, hormônios associados a distúrbios como ansiedade, déficit de atenção e hiperatividade e stress. E experimentam um aumento na produção de endorfinas, ligadas à sensação de felicidade. A mudança na produção de hormônios foi observada por pesquisadores do Davis Center for Mind and Brain da Universidade da Califórnia. Eles analisaram o nível de adrenalina, cortisol e endorfinas antes e depois de um grupo de voluntários meditar. E comprovaram que, quanto mais profundo o estado de relaxamento, menor a produção de hormônios do stress.

* Um estudo conduzido pelo Wake Forest Baptist Medical Center, na Carolina do Norte, colocou 15 voluntários para aprender a meditar em quatro aulas de 20 minutos cada. A atividade cerebral foi examinada antes e depois das sessões. Em todos os pesquisados, foi observada uma redução na atividade da amígdala, região do cérebro responsável por regular as emoções. E os níveis de ansiedade caíram 39%.

* Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos descobriram ao analisar 28 enfermeiras do hospital da Universidade do Novo México, 22 delas com sintomas de stress pós-traumático. A metade que realizou duas sessões por semana de alongamento e meditação viram os níveis de cortisol baixar 67%. A outra metade continuou com os mesmos níveis.

* Refugiados do Congo que tiveram que deixar suas terras para escapar da guerra meditaram ao longo de um mês e tiveram redução dos sintomas de stress pós-traumático três vezes maior do que as pessoas que não meditaram – índices parecidos aos já observados entre veteranos americanos das guerras do Vietnã e do Iraque.

 

A meditação budista e as tradições

A medida em que o budismo se espalhou por diferentes países, diferentes tradições foram surgindo e diferentes maneiras de ensinar apareceram. Algumas técnicas desapareceram, outras foram adaptadas e outras foram adicionadas, vindas de outras tradições ou mesmo criadas.

Theravada (escola dos anciãos)

A meditação toma, como base, os ensinamentos do Buda onde prescreve diversos métodos de desenvolvimento mental para erradicar apego e aversão, ou para desenvolver algum fator que contribua para a erradicação desses. Atualmente, é popular uma visão que toma a meditação por dois ângulos: tranquilidade e concentração (samatha) e sabedoria e visão (vipassana).

Vajrayana

Na escola Vajrayana são adicionados métodos tântricos que têm, por objetivo, acelerar o processo de iluminação. O objetivo dos ensinamentos de Mahamudra e Dzogchen, ensinados respectivamente pelas escolas Kagyu e Nyingma, é se familiarizar com a natureza última da mente que delineia toda a existência, passando assim por estágios que levam à iluminação. As práticas preliminares das escolas Kagyu e Nyingma são chamadas Ngondro, e envolvem visualizações, recitação de mantras e prostrações.

Zen

A meditação no Zen é o Zazen. É mantida a atenção plena sentada, com base na respiração, observando os pensamentos e sensações à medida que surgem e passam. A prática de atenção plena à medida que é desenvolvida leva a um maior entendimento, aceitação e compreensão da realidade.

Terra pura

A meditação no budismo Terra pura é, basicamente, a recitação do nome do Buda Amitaba, ou sua visualização.

 

Mindfulness

A meditação do ponto de vista da ciência

Um novo tipo de meditação, chamado Mindfulness, separou a parte mística e religiosa da prática vinda do Oriente e focou somente nas descobertas científicas sobre os benefícios da meditação.

O Mindfulness não usa mantras, não tem a intenção de elevar o espírito e nem de ser uma maneira de encontrar Deus. Não está ligada ao budismo, hinduísmo ou taoísmo, já que não leva em consideração o lado religioso. O foco está em prestar atenção às sensações do corpo. Em especial à respiração para assim interromper a bagunça de pensamentos desordenados e acalmar a mente, lotada de pensamentos confusos. Você não precisa de mais nada além da atenção plena.

Atualmente é usada em hospitais, clínicas, escolas, bases militares, em treinamentos de atletas de elite e em empresas.

O médico americano Jon Kabat-Zinn criou um programa chamado Redução de estresse com Mindfulness, em 1979. O intuito era tratar pacientes com dores crônicas que não respondiam aos tratamentos convencionais. Apesar dele ter usado como base seus conhecimentos prévios em meditação e Ioga, a espiritualidade e a religião não foram considerados requisitos básicos para iniciar a prática.

 

Meditação Zero

E se a meditação não fosse nada daquilo que você pensa?

Semanalmente, um grupo de pessoas se reúne em salas virtuais, no intuito de facilitar uma descoberta incrível e libertadora, o reconhecimento direto e experimental de que já somos tudo aquilo que sempre buscamos em nossas vidas. Esse reconhecimento não é um saber intelectual, mas uma experiência viva.

“Não é uma técnica nova, nem antiga. De fato, não é uma técnica. Na Meditação Zero há o reconhecimento de que as técnicas podem ajudar, mas não são fundamentais para você ser quem você realmente é”, diz o facilitador Otávio Fattori.  

Segundo Otávio, Meditação Zero é apenas um nome para algo que sempre esteve presente com você: a sua verdadeira natureza. É Zero porque é zero técnicas e zero esforço. É simplesmente o estado natural de ser. É uma descoberta, não um "fazer".

Essa descoberta está acontecendo com muitas pessoas ao redor do planeta. “É uma descoberta incrível e libertadora, mas ao mesmo tempo bastante assustadora, pois implica em um processo geralmente doloroso de desconstrução de identidade”, comenta Otávio.

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